Coração triste

A. Nepomuceno

No arvoredo sussurra o vendaval do outono,

Deita as folhas à terra, onde não há florir,

E eu contemplo sem pena esse triste abandono;

Só eu as vi nascer, vejo-as só eu cair.

Como a escura montanha, esguia e pavorosa

Faz, quando o sol descamba, o vale enoitecer

Esta montanha da alma, a tristeza amorosa

Também de ignota sombra enche todo o meu ser.

Transforma o frio inverno a água em pedra dura,

Mas torna a pedra em água um raio de verão;

Vem, ó sol, vem, assume o trono teu na altura,

Vê se podes fundir o meu triste coração.