Dolor supremus

A. Nepomuceno

Aos corações que vivem na amargura

Ouvi dizer mais de uma vez: "O amor

é das noites a noite mais escura,

Das dores todas a suprema dor."

E eu a alheia miséria contemplando,

A mim mesmo sorrindo perguntava:

"Quando o acharás também, minh'alma, quando

do seu poder hás de cair escrava?"

Mas quando nem supunha certamente

Que pudesse ser presa desse mal,

Feriu-me o peito inesperadamente

A mesma dor insólita e brutal.

Busquei na ausência o bálsamo do tédio

Consolo à mágoa lenitivo ao pranto

E pior do que o mal foi o remédio,

Que eu não supunha que amargasse tanto.