Filomela (Philomela)
A. Nepomuceno
Gorgeia flébeis amores
Sobre o lago, a ave canora;
Sobre o lago chove a aurora
Da espessa ramada flores...
As notas desse hino ardente
Voam, revoam, suaves;
Como um doudo bando de aves
Vão-se pelo ar transparente...
Rola em ondas a harmonia
pelo outeiro, pela vargem,
torrentes de ouro se espargem
no azul; o sol irradia.
Pelo outeiro, pela vargem,
Rola em ondas a harmonia.
Só se escuta o passarinho
Silêncio! É muda a folhagem;
Baixinho cicia a aragem
E a água sussurra baixinho...
Dos países de onde veio
Chora o clima e as primaveras
Quantas douradas quimeras
Palpitam no seu gorjeio!
O espaço em torno ressoa...
E enquanto saudoso trina
Voa uma ave de rapina...
Sobre ele um milhafre voa
A inocência aos pés do crime
Assim sorri descuidosa
Sem pressentir a maldosa
Garra que, presto, a comprime
Nemhod! Nemhod a Inocência salva
E impede o crime execrando
Tu que as selvas perlustrando
Vives desde o romper d'alva.
Impede o crime execrando, Nemhod
E a Inocência salva.