Madrigal

A. Nepomuceno

Por que é que dizes, meu gentil tesouro,

Que toda a vida hás de descrer do amor?

Oh! Que pecado! Que pecado de ouro

Falar no Pólo à beira do Equador!

Dizes que tens o coração deserto...

Dos homens todos sem piedade zombas...

Toma sentido, que o milhafre esperto

Quando tem fome atira o laço às pombas!

Nos teus bons olhos que são negras ilhas,

Ouve-se um canto de amorosas rolas...

Que valem, pois, as falsas maravilhas

Dessa adorável boca de papoulas?

Quando chegar o trovador celeste

Príncipe azul dos teus azuis desejos,

Eu hei de ver todo esse gelo agreste

Num rubro orvalho desfazer-se em beijos!

Por que repetes, meu gentil tesouro,

Que a vida inteira hás de descrer do amor?

Oh! Que pecado! Que pecado de ouro

Falar no Pólo à beira do Equador!