Soneto

A. Nepomuceno

Ando tão venturoso com querer-te

Que, por achar de mais tanta ventura,

Ó delicada e meiga criatura

Temo que venha o instante de perder-te.

Todo o bem que em minh'alma esse amor verte

Faz-se depressa em pérfida tortura:

Julgo que enlouqueci, pois é loucura

pensar que te perdi só por não ver-te.

Se penso, és tu meu pensamento,

Canto, e és tu a estrofe do meu canto.

Falo, teu nome é o termo que me vem, risonho;

Se de saudade choro, és o meu pranto;

És meu silêncio se de dor me calo,

És o meu sonho, quando à noite sonho.