O pálida madona

Anonymous

Quero viver de esperança

Quero tremer e sentir!

Na tua trança cheirosa

Quero sonhar e dormir.

-- A. DE AZEVEDO.

Ó pálida madona de meus sonhos,

Doce filha dos cerros de Engadi!...

Vem inspirar os cantos do poeta,

Rosa branca da lira de Davi!

Todo o amor que em meu peito repousava,

Como o orvalho das noites ao relento,

A teu seio elevou-se, como as névoas,

Que se perdem no azul do firmamento.

Aqui... além... mais longe, em toda a parte,

Meu pensamento segue o passo teu.

Tu és a minha luz, -- sou tua sombra,

Eu sou teu lago, -- se tu és meu céu.

Lá, no teatro, ao som das harmonias,

Vendo-te a fronte altiva e peregrina...

Eu apertava o seio murmurando

-- "Oh! mata-me de amor, mulher divina!"

À tarde, quando chegas à janela,

A trança solta, onde suspira o vento,

Minha alma te contempla de joelhos...

A teus pés vai gemer meu pensamento.

Inda ontem, à noite, no piano

Os dedos teus corriam no teclado;

Que, às carícias destas mãos formosas,

Gemia e suspirava apaixonado.

Depois cantaste... e a ária suspirosa

Veio nalma acender-me mais desejos;

Dir-se-ia que essas notas eram doces

Como sussurro de amorosos beijos.

Oh! diz'me, diz'me, que ainda posso um dia

De teus lábios beber o mel dos céus;

Que eu te direi, mulher dos meus amores:

-- Amar-te ainda é melhor do que ser Deus!