Sonho da Boêmia

Anonymous

I

Vamos, meu anjo, fugindo,

A todos sempre sorrindo,

Bem longe nos ocultar...

Como boêmios errantes,

Alegres e delirantes

Por toda a parte a vagar.

II

Há tanto canto na terra

Que uma vida inteira encerra!...

E que vida!... Um céu de amor!

Seremos dois passarinhos,

Faremos os nossos ninhos

Lá onde ninguém mais for.

III

Uma casinha bonita,

Lá na mata que se agita

Do vento ao mole soprar,

Com as folhas secas da selva

Com o lençol verde da relva

Oh! quanto havemos de amar!...

IV

De manhã, inda bem cedo,

Hás de acordar, anjo ledo,

Junto do meu coração...

Ao canto alegre das aves

As nossas canções suaves,

Quais preces se ajuntarão.

V

Passearemos à sesta...

Sonharemos na floresta,

Sempre felizes, meu Deus!...

Nalma lânguida esteira,

Quanta cantiga faceira

Ouvirei dos lábios teus!...

VI

E à noite, no mesmo leito

Reclinada no meu peito,

Hei de ouvir os cantos teus.

A cada estrofe bonita

No teu seio, que palpita,

Terás cem beijos, por Deus!

VII

Farei poesias ou versos

Aos teus olhinhos perversas

Aos teus "anhos, meu bem!

Tu cantarás, é Manola,

Aquela moda espanhola

Que tantos requebros tem!

VIII

Depois, que lindas viagens!...

Veremos novas paisagens,

No sul, no norte, onde for...

Voando sempre, querida,

Co'a primavera da vida,

Co'a primavera do amor.

IX

Vamos, meu anjo, fugindo,

A todos sempre sorrindo

Bem longe nos ocultar.

Como boêmios errantes

Que repetem delirantes:

"P'ra ser feliz basta amar"!