Balada do desesperado
E. Krieger
-- Quem bate à porta a tais horas?
-- Abre, sou eu. Quem tu és?
Não se entra na minha casa
Tão tarde assim, bem o vês.
-- Abre. -- Teu nome? -- Há geada,
Abre. Teu nome? -- És tardio!
Qual é teu nome? -- Ai, na cova
Um morto não tem mais frio.
Eu caminhei todo o dia
Do sul ao setentrião,
Ao pé da tua lareira
Quero sentar-me -- Inda não!
Diz teu nome... -- Eu sou a glória
E aspiro à posteridade...
-- Passa fantasma irrisório...
-- Ó dá-me hospitalidade!
Eu sou o amor e a esperança
As duas porções de Deus...
-- Segue a estrada... A minha amante
Há muito me disse adeus!
-- Eu sou a arte e a poesia,
Proscreveram-me... Abre! -- Não!
Já não canto minha amante.
Nem sei que nome lhe dão!...
-- Abre, que eu sou a riqueza,
E trago do ouro o fulgor,
-- Posso dar-te a tua amante...
-- Podes dar-me o seu amor?
-- Sou o poder, tenho a púrpura.
Abre a porta! -- Anelo vão!
Podes trazer-me a existência
Daqueles que já não sâo?!
-- Se tu não abres teus lares
Senão a quem diz seu nome
Sou a morte! trago alívio
P'ra cada dor que consome!
Podes ver, trago na cinta
Ruidosas chaves fatais...
Abrigarei teu sepulcro
Do insulto dos animais.
-- Entra, estrangeira funérea...
Perdoa à mendicidade,
Porque é no lar da miséria
Que tens hospitalidade.
Entra; cansei-me da vida
Que nada tem que me dar...
Há muito eu tinha desejos
(Não força) de me matar!
Entra no lar, bebe e come,
Dorme, e quando despertares,
Para pagar tua conta
Hás de levar-me aos teus lares.
Eu te esperava, eu te sigo...
Vamos... arrasta-me... assim...
Mas deixa o meu cão na terra
P'ra eu ter quem chore por mim!