Quadras ao gosto popular

E. Mahle

Cantigas de portugueses

São como barcos no mar --

Vão de uma alma para outra

Com riscos de naufragar.

A caixa que não tem tampa

Fica sempre destapada

Dá-me um sorriso dos teus

Porque não quero mais nada.

No baile em que dançam todos

Alguém fica sem dançar.

Melhor é não ir ao baile

Do que estar lá sem estar.

Vale a pena ser discreto?

Não sei bem se vale a pena.

O melhor é estar quieto

E ter a cara serena.

Tenho um relógio parado

Por onde sempre me guio.

O relógio é emprestado

E tem as horas a fio.

Aquela senhora velha

Que fala com tão bom modo

Parece ser uma abelha

Que nos diz: "Não incomodo".

Não digas mal de ninguém,

Que é de ti que dizes mal.

Quando dizes mal de alguém

Tudo no mundo é igual.

Quando vieste da festa,

Vinhas cansada e contente.

A minha pergunta é esta:

Foi da festa ou foi da gente?

Tenho uma pena que escreve

Aquilo que eu sempre sinta.

Se é mentira, escreve leve.

Se é verdade, não tem tinta.

Deixaste cair a liga

Porque não estava apertada...

Por muito que a gente diga

A gente nunca diz nada.

Não há verdade na vida

Que se não diga a mentir.

Há quem apresse a subida

Para descer a sorrir.

Santo Antônio de Lisboa

Era um grande pregador

Mas é por ser Santo Antônio

Que as moças lhe têm amor.

Tem um decote pequeno,

Um ar modesto e tranqüilo;

Mas vá-se lá descobrir

Coisa pior do que aquilo!

Aquela loura de preto

Com uma flor branca no peito,

É o retrato completo

De como alguém é perfeito.