Sonho póstumo

F. Mignone

Poupem-me, quando morto, à sepultura: odeio

A cova, escura e fria.

Ah! deixem-me acabar alegremente, em meio

Da luz, em pleno dia.

O meu último sono eu quero assim dormi-lo:

-- Num largo descampado,

Tendo em cima o esplendor do vasto céu tranquilo

E a primavera ao lado.

Bailem sobre o meu corpo asas trêmulas, asas

Palpitando de leve,

De insetos de ouro e azul, ou rubros como brasas,

Ou claros como neve.

De entre moitas em flor, oscilantes na aragem,

Úmidas e cheirosas,

Espalhando em redor frescuras de folhagem,

E perfumes de rosas,

Subam, jovializando o ar, canções suaves

-- A música sonora

Em que parece rir a alegria das aves,

Encantadas da aurora.

E cada flor que um galho acaso dependura

À beira dos caminhos

Entreabra o seio ao sol, às brisas, à doçura

De todos os carinhos.

Passe em redor de mim um frêmito de gozo

E um calor de desejo,

E soe o farfalhar das árvores, moroso

Como o rumor de um beijo.

Palpite a natureza inteira, bela e amante,

Volutuosa e festiva.

E tudo vibre e esplenda, e tudo fulja e cante,

E tudo sonhe e viva.

A sepultura é noite onde rasteja o verme...

Ó luz que eu tanto adoro,

Amortalha-me tu! E possa eu desfazer-me

No ar claro e sonoro!