A fada negra

G. Velasquez

Uma velha de olhar mudo e frio,

De olhos sem cor, de lábios glaciais,

Tomou-me nos seus braços sepulerais.

Tomou-me sobre o seio ermo e vazio.

E beijou-me em silêncio, longamente,

Longamente me uniu à face fria...

Oh! como a minha alma se estorcia

Sob os seus beijos, dolorosamente!

Onde os lábios pousou, a carne logo

Mirrou-se e encaneceu-se-me o cabelo,

Meus ossos confrangeram-se. O gelo

Do seu bafo secava mais que o fogo.

Com seu olhar sem cor, que me fitava,

A Fada negra me qualhou o sangue.

Dentro em meu coração inerte e exangue

Um silêncio de morte se engolfava.

E volvendo em redor olhos absortos,

O mundo pareceu-me uma visão,

Um grande mar de nevoa, de ilusão,

E a luz do sol como um luar de mortos...

Como o espectro d'um mundo já defunto,

Um farrapo de mundo, nevoento,

Ruina aerea que sacode o vento,

Sem cor, sem consistencia, sem conjunto...

E quanto adora quem adora o mundo,

Brilho e ventura, esperar, sorrir,

Eu vi tudo oscilar, pender, cair,

Inerte e já da cor d'um moribundo.

Dentro em meu coração, n'esse momento,

Fez-se um buraco enorme -- e n'esse abismo

Senti ruir não sei que cataclismo,

Como um universal desabamento...

Razão! velha de olhar agudo e cru

E de halito mortal mais do que a peste!

Pelo beijo de gelo que me deste,

Fada negra, bemdita sejas tu!

Bendita sejas tu pela agonia

E o luto funeral d'aquela hora

Em que eu vi baquear quanto se adora,

Vi de que noite é feita a luz do dia!

Pelo pranto e as torturas benfazejas

Do desengano... pela paz austera

D'um morto coração, que nada espera,

Nem deseja tambem... bendita sejas!