Desiludida

H. Braga

Sou como a corça ferida

Que vai, sedenta e arquejante,

Gastando uns restos de vida

Em busca da água distante.

Bem sei que já me não ama,

E sigo, amorosa e aflita,

Essa voz que não me chama,

Esse olhar que não me fita.

Bem reconheço a loucura

Deste amor abandonado

Que se abre em flor, e procura

Viver de um sonho acabado;

E é como a corça ferida

Que vai, sedenta e arquejante,

Gastando uns restos de vida

Em busca da água distante.

Só, perdido no deserto,

Segue empós do seu carinho:

Vai se arrastando... e vai certo

Que morre pelo caminho.