Amar

H. Camêu

Amar! se te amo, não sei.

Oiço aí pronunciar

Essa palavra de modo

Que não sei o que é amar.

Se amar é sonhar contigo,

Se é pensar, velando, em ti,

Se é ter-te n'alma presente

Todo esquecido de mim!

Se é cobiçar-te, querer-te

Como uma bênção dos céus

A ti somente na terra

Como lá em cima a Deus;

Se é dar a vida, o futuro,

Para dizer que te amei:

Amo; porém se te amo

Como oiço dizer, — não sei.

Sei que se um gênio bom me aparecesse

E tronos, glórias, ilusões floridas,

E os tesouros da terra me oferecesse

E as riquezas que o mar tem escondidas;

E do outro lado — a ti somente, — e o gozo

Efêmero e precário — e após a morte;

E me dissesse: "Escolhe" — oh! jubiloso,

Exclamara, senhor da minha sorte! —

"Que tesouro na terra há i que a iguale?

Quero-a mil vezes, de joelhos — sim!

Bendita a vida que tal preço vale,

E que merece de acabar assim!"