Confissão

N. Cavalcanti

Se não a vejo e o espírito a afigura,

Cresce este meu desejo de hora em hora...

Cuido dizer-lhe o amor que me tortura,

O amor que a exalta e a pede e a chama e a implora.

Cuido contar-lhe o mal, pedir-lhe a cura...

Abrir-lhe o incerto coração que chora,

Mostrar-lhe o fundo intacto de ternura,

Agora, embravecida e mansa agora...

E é num arroubo que a alma desfalece

De sonhá-la prendada e casta e clara,

Que eu, em minha miséria, absorto a aguardo...

Mas ela chega, e toda me parece

Tão acima de mim... tão linda e rara...

Que hesito, balbucio e me acobardo.