Solau do desamado

F. Mignone

Donzela, deixa tua aia,

Tem pena do meu penar.

Já das assomadas raia

O clarão dilucular,

E o meu olhar se desmaia

Transido de te buscar.

Sai desse ninho de alfaia,

- Céu puro de teu sonhar,

Veste o quimão de cambraia,

Mostra-te ao fulgor lunar.

Dá que uma só vez descaia

Do ermo baleão do solar

Como uma ardente azagaia

O teu fuzilante olhar.

Donzela, deixa tua aia,

Tem pena do meu penar.

Sou mancelo de alta laia:

Não trabalho e sei justar.

Relincham em minha baia

Hacanéias de invejar.

Tenho lacaio e lacaia.

Como um boi ao meu jantar!

Castelã donosa e gaia,

Acode ao meu suspirar

Antes que a luz se esvaia...

Tem pena do meu penar.

Vou-me ao golfo de Biscaia

Como um bastardo afogar.

Minh'alma blasfema e guaia,

Minh'alma que vais danar,

Dona Olaia, Dona Olaia!

-Meu alaúde de faia,

Soluça mais devagar...