Em toda a noite o sono não veio

J. Santos

Em toda a noite o sono não veio. Agora

Raia do fundo

Do horizonte, encoberta e fria, a manhã.

Que faço eu no mundo?

Nada que a noite acalme ou levante a aurora,

Coisa séria ou vã

Com olhos tontos da febre vã da vigília

Vejo com horror

O novo dia trazer-me o mesmo dia do fim

Do mundo e da dor —

Um dia igual aos outros, da eterna família

De serem assim.

Nem o símbolo ao menos vale, a significação

Da manhã que vem

Saindo lenta da própria essência da noite que era,

Para quem,

Por tantas vezes ter sempre esperado em vão,

Já nada espera.