Canção Perdida

A. Fragoso

Halitos de lilaz, de violeta e d'opala,

Roxas macerações de dor e d'agonia,

O campo, anoitecendo e adormecendo, exhala...

Triste, canta uma voz na sincope do dia:

Alguem de mim se não lembra

Nas terras d'alem do mar...

Ó Morte, dava-te a vida,

Se tu lha fosses levar!...

Ó Morte, dava-te a vida,

Se tu lha fosses levar!...

Com o beijo do sol na face cadaverica,

Beijo que a morte esvae em palidez algente,

Eis a lua a boiar sonambula e chimerica...

Doce, canta uma voz melancolicamente:

O meu amor escondi-o

N'uma cova ao pé do mar...

Morre o amor, vive a saudade...

Morre o sol, olha o luar!...

Morre o amor, vive a saudade...

Morre o sol, olha o luar!...

Latescente a neblina opalica flutua,

Diluindo, evaporando os montes de granito

Em colossos de sonho, extasiados de lua...

Flebil, chora uma voz no letargo infinito:

Quem dá ais ó rouxinol,

Lá para as bandas do mar?...

É o meu amor que na cova

Leva as noites a chorar!...

É o meu amor que na cova

Leva as noites a chorar!...

A lua enorme, a lua argentea, a lua calma,

Imponderalisou a natureza inteira,

Descondensou-a em fluido e embebeceu-a em alma...

Triste expira uma voz na canção derradeira:

Ó meu amor, dorme, dorme

Na areia fina do mar,

Que em antes da estrella d'alva

Comtigo me irei deitar!...

Que em antes da estrella d'alva

Comtigo me irei deitar!...