Cantiga do Campo

A. Fragoso

Por que andas tu mal commigo?

Ó minha doce trigueira?

Quem me dera ser o trigo

Que, andando, pisas na eira!

Quando entre as mais raparigas

Vaes cantando entre as searas,

Eu choro ao ouvir-te as cantigas

Que cantas nas noutes claras!

Os que andam na descamisa

Gabam a violla tua,

Que, ás vezes, ouço na brisa

Pelos serenos da lua.

E fallam com tristes vozes

Do teu amor singular

Áquella casa onde cozes,

Com varanda para o mar.

Por isso nada me medra,

Ando curvado e sombrio!

Quem me dera ser a pedra

Em que tu lavas no rio!

E andar comtigo, ó meu pomo,

Exposto ás chuvas e aos soes!

E uma noute morrer como

Se morrem os rouxinoes!

Morrer chorando, n'um choro

Que mais as magoas consolla,

Levando só o thesouro

Da nossa triste violla!

Por que andas tu mal commigo?

Ó minha doce trigueira?

Quem me dera ser o trigo

Que, andando, pisas na eira!