Ao crepúsculo

H. Camêu

O crepúsculo cai, tão manso e benfazejo

Que me adoça o pesar de estar em terra estranha.

E enquanto o ângelus abençoa o lugarejo,

Eu penso em ti, apaziguado e sem desejo,

Fitando no horizonte a linha da montanha.

A montanha é tranqüila e forte, e grande e boa.

Ela afaga o meu sonho. E alegra-me pensar

(Tanto a saudade a um tempo acalenta e magoa!)

Que tu, na doce paz da tarde que se escoa,

Teces o mesmo sonho, ouvindo e vendo o mar.

Embalada na voz do grande solitário,

Tu mortificarás teu casto coração

Na dor de revocar o noivado precário.

(Ah, por que te confiei o meu desejo vário?

Por que me desvendaste a tua sedução?)

Se nos aparta o espaço, o tempo -- esse nos liga.

A lembrança é no amor a cadeia mais pura.

Tu tens o grande Amigo e eu tenho a grande Amiga:

O mar segredará tudo quanto eu te diga,

E a montanha dir-me-á a tua imensa ternura.